quinta-feira, 2 de julho de 2009

Tragédia, comédia e conhecimento: o Teatro e a Ciência!

Há alguns dias percebi que meia hora de internet, quando bem utilizada, é surpreendente, descobrimos coisas fantásticas e ainda podemos compartilhar com o público leitor. Pois bem, encontrei uma matéira na Nature* que falava sobre a comemoração do Ano Internacional da Astronomia, uma peça de teatro que trata da relação que existia entre Galileu e o Papa Urbano VIII, achei fantástica a idéia de um grupo de teatro abordar a ciência, é um modo diferente de se conhecer a mesma, sem contar que tudo que envolve teatro é demais. O lado ruim da notícia é que a peça está em cartaz nos EUA, então, num diálogo com os colegas de faculdade alguém me disse: “pena que no Brasil não temos dessas coisas”. Foi aí que lembrei - o que nunca deveria ter esquecido – do Grupo de Teatro Arte e Ciência no Palco. Presenciei pelo menos 3 espetáculos deles e repeti a dose com a peça “After Darwin”.

Os atores são sensacionais, as peças muito instigantes e divertidas e sempre trazendo muita informação e / ou conhecimento.

Foi então que a Ana, a Alcione e este que vos escreve decidiram entrevistar o grupo ACP e quem respondeu pelo grupo foi Oswaldo Mendes, um dos integrantes do mesmo. Confira aí:

HdC - Quando surgiu o grupo?

OSWALDO MENDES – A semente do grupo Arte Ciência no Palco é o espetáculo “Einstein”, de 1998, que até hoje o ator Carlos Palma interpreta pelo Brasil afora. Ator formado pela Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo, Carlos Palma encontrou em “Einstein” o caminho para a sua volta, em definitivo e com dedicação total, ao teatro. Um ano depois da estréia em São Paulo, o espetáculo fez uma breve temporada na Casa da Ciência, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O encontro com o físico Ildeu de Castro foi o empurrão que faltava para o nascimento de um grupo de teatro voltado para a montagem de peças que tivessem as chamadas ciências naturais como tema. Foi de Ildeu a sugestão para Palma e Adriana Caruí (Produtora do ACP) irem atrás de uma peça que acabara de estrear em Londres, com grande sucesso: “Copenhagen”, de Michael Frayn. Já com o objetivo de tornar realidade o Arte Ciência no Palco, eles compraram os direitos da peça para o Brasil, em 2000. Foi ai que eu, também ator formado pela mesma Escola de Arte Dramática e durante muitos anos dividido entre o jornalismo e o teatro, conheci o então recém nascido grupo. Convidado para interpretar Niels Bohr, primeiro eu me assustei, com a complexidade da peça e do personagem. Mas movido pela intuição – e como dizem físicos do porte de Einstein e Mário Schenberg a intuição às vezes é mais importante que o raciocínio – eu aceitei o desafio de “Copenhagen”. E estou no Arte Ciência no Palco desde 2001. Vale lembrar que entre “Einstein” e “Copenhagen”, Palma e Adriana fizeram também o primeiro espetáculo infantil do grupo, “Da Vinci, Pintando o Sete”. Depois, mais cinco espetáculos, um por ano: “Perdida, uma Comédia Quântica” de Jose Sanchis Sinisterra, “Quebrando Códigos” do inglês Hugh Witemore sobre o matemático Alan Turing, “E agora, sr. Feynman?” de Peter Parnell sobre o físico Richard Feynman e o infantil “20.000 Léguas Submarinas... Ufa!” e “A Dança do Universo” para comemorar o Ano Mundial da Física, pelos 100 Anos da Relatividade, e o centenário da morte de Júlio Verne.

HdC – Qual o objetivo do projeto?

OSWALDO MENDES – O nosso objetivo é fazer teatro. Ponto final. A opção por textos com temas, digamos, científicos tem a ver as nossas necessidades de artistas e de cidadãos deste mundo em que as questões da ciência e da tecnologia ganham importância e urgência cada vez mais graves... Então nós acreditamos que mergulhar na vida e nas idéias desses personagens é uma maneira de trazer estas questões para o cotidiano das pessoas. São personagens que nos ajudam não só a entender o mundo em que vivemos, mas principalmente a pensar sobre ele, refletir sobre as questões que envolvem o conhecimento humano.

HdC – Qual o público-alvo?

OSWALDO MENDES – Por ambição artística nós diríamos que o público-alvo é todo o público, todas as pessoas que compartilham as nossas inquietações com o destino do ser humano neste planeta, neste universo em que vivemos. São as pessoas que buscam no teatro esse local de reflexão a que Brecht se referia. Ou pessoas que, como diz Michael Frayn, autor de “Copenhagen”, que gostem de ser desafiadas em seus corações e, principalmente, em suas mentes. E ai não há distinção etária nem de graus de instrução ou de formação. Tomando o nosso espetáculo “Copenhagen” como referência, ele já foi apresentado com igual êxito para platéias da comunidade cientifica e para alunos da rede pública de segundo grau.

HdC – Fale um pouco sobre “A Dança do Universo”.

OSWALDO MENDES – “A Dança do Universo” nasceu inspirada pelo livro do físico Marcelo Gleiser. Foi só inspiração porque o livro de Gleiser tem um caráter didático, seria impossível pensar em uma adaptação. Mas ele me deu o mote e a direção para que eu mergulhasse nessa maravilhosa aventura humana, o longo caminho da ignorância até o conhecimento, e o embate permanente entre essas duas forças. Nesse mergulho eu me detive na vida e nas idéias de alguns personagens que nos ajudam a entender melhor o mundo em que vivemos. E usando o teatro, a música e o humor como ferramentas, baguncei um pouco a história, indo do brasileiro Mário Schenberg ao inglês Isaac Newton e criando cenas em que, por exemplo, coloco frente a frente Kepler e Galileu ou Charles Chaplin e Albert Einstein.

HdC – Em quais estados vocês se apresentaram?

OSWALDO MENDES – Além de várias cidades do interior de São Paulo estão no nosso roteiro desde o Rio Grande do Sul ao Acre, passando por Rio de Janeiro, Paraná, Brasília, Ceará, enfim, a agenda é muito variada, felizmente. O Arte Ciência no Palco tem, no momento, cinco peças em seu repertório, com as quais viaja atendendo a convites: “Einstein”, “After Darwin”, “Copenhagen”, “E agora, sr. Feynman?” e “A Dança do Universo”.

HdC – Vocês trabalham com textos próprios?

OSWALDO MENDES – Esta é uma preocupação permanente, porque tirando alguns clássicos sempre citados, como “A Vida de Galileu” de Brecht e “Os Físicos” de Dürrenmatt, não existem muitos textos de teatro que tratem das questões da ciência. Acho até que o sucesso mundial de “Copenhagen” tenha despertado nos autores a possibilidade de trabalhar esses temas. Foi essa necessidade de textos próprios que nos levou a escrever “A Dança do Universo”, “20.000 Léguas Submarinas... Ufa!” e, anteriormente, “Da Vinci, Pintando o Sete”. Mas estamos vendo uma tendência crescente no mundo todo por uma dramaturgia voltada para esses temas.

HdC – É fácil conseguir patrocínio?

OSWALDO MENDES – A pergunta seria engraçada se não fosse trágica. Não, não é fácil. Primeiro porque a cultura do patrocínio ao teatro no Brasil é zero, com raras exceções. Segundo porque as empresas que poderiam patrocinar projetos com características tão definidas como o Arte Ciência no Palco, e ai eu falo de empresas públicas, não têm sensibilidade nenhuma por nada que não seja eventos de massas, tanto faz se esportivos ou musicais. E quando se voltam para o teatro não é o teatro que lhes interessa, mas as celebridades televisivas que eventualmente fazem teatro, algumas com mais ou menos talento, com melhores ou piores intenções ou ambições artísticas. A sorte do nosso projeto é ter encontrado mais do que patrocinadores, parceiros. Pessoas e empresas que se interessam pelo projeto e ajudam a viabilizá-lo. Nesses anos tivemos o apoio da Interprint, do Etapa Ensino e Cultura (que continua nosso parceiro), uma entidade educacional, e a Amana-Key Desenvolvimento & Educação, que tornou possível a montagem de “Copenhagen” e ainda hoje acompanha o projeto com carinho e atenção. Vale dizer que nenhuma dessas empresas recorreu a nenhuma lei de incentivo federal ou municipal para dar seu apoio ao Arte Ciência no Palco. Elas nos apoiaram por acreditar no nosso trabalho, o que aumenta a nossa responsabilidade. Elas são o modelo de patrocínio que queremos para o projeto, que sejam parceiros mais que meros patrocinadores que investem sem saber no que estão investindo.

HdC – Por que divulgar ciência no teatro?

OSWALDO MENDES – Eu respondo com outra pergunta: por que não? Quando digo que fazemos teatro e não divulgação científica é porque somos apenas e tão somente artistas de teatro. Queremos fazer sempre e melhor o que nos dedicamos a fazer, que é teatro. Mas, embora não seja esse o objetivo do grupo Arte Ciência no Palco, estamos convencidos de que é possível – pelo teatro – não só fazer o que se convencionou chamar de divulgação cientifica, mas ajudar as pessoas a pensar sobre o mundo em que vivem, a fazer do conhecimento uma deliciosa aventura e uma possibilidade de tornar, como dizia Brecht, mais suave o fardo da existência humana. No fundo é este o objetivo maior da Arte e da Ciência: fazer a vida melhor.

Caso queira conhecer mais o grupo é só visitar o site www.arteeciencianopalco.com.br, e há também alguns vídeos do grupo www.youtube.com.br/nucleoacp


* NATURE Vol 459. p 512. 28 May 2009

Agradecimentos: as autoras do Blog (Ana e Alcione), do Oswaldo Mendes e Adriana Carui que colaboraram para que a entrevista acontecesse.

6 comentários:

Alcione Torres disse...

Alan

Ótimo trabalho! O mérito é seu!
Um abraço!

fabricio disse...

Parabens pelo trabalho.

Faço faculdade de quimica na UERN e aqui partipo do grupo de teatro cientifico e sei o qual dificil é a luta para apresentamos a ciencia de forma ludica, é preciso coragem pra segui a diate.

Realizamos recentemente o congreço anual de teatro cientifico "Ciencia em Cena" aqui na nossa cidade. Projeto que tem como meta a apresentação etroca de informações entre grupos de teatro cientifico, para quem estiver entereçado para o congresso, entrar em contato com o grupo de teatro cientifico- Ouroboros da UFSCAR


Abnarço a todos e a luta continua


boa sorte a toods vocÊs.

fabricio disse...

faço parte do grupo de teatro cientifico da minha faculdade e sei o quanto é dificil faze-lo, a luta é grande mais a reconpensar de fazer ciencia dessa forma é muito boa.

abraço a todos

Alan Dantas - Num disse...

É fabrício, aqui em Botucatu também temos o Grupo D. Maria Inês o qual eu participo e o mais gratificante é quando além da peça os espectadores saem com a sensação de que aprenderam algo sobre ciência e que a mesma não é coisa de "imortais".
Um grande abraço e vamo que vamo!!!

Jujuba [L'Chimie] disse...

Olha que pura coincidência! Conheço o Fabrício, aliás, participei do "Ciência em Cena" de 2008 (UFSCAR)com ele, porém no evento deste ano, o Grupo Alquimia - o qual faço parte - não pode ir por falta de patrocínio da viagem para Mossoró-RN, Triste! Mas, falando da ciência de outra forma, nos palcos, é algo impressionante e que me fez ficar apaixonada pela arte teatral exatamente por levar a ciência para pessoas que pensam que a mesma é só para grandes estudiosos.
Atualmente nós do Alquimia estamos tentando fazer uma peça relacionada a algum cientista, mais precisamente relacionado à química, porém está complicado, precisamos de idéias novas (aceitamos sugestões)! Quando conseguirmos, certamente postarei algo aqui!
comunidade do grupo: http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=90117325

Abraços.

Bio disse...

Ju!!

Não dá pra falar sobre Dimitri Mendeliev? ou Linus Pauling?

Fizemos uma p/ o dia do Biólogo aqui em Botucatu e ficou show!
Logo em breve teremos algumas cenas no youtube.

Abraços!