segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Arquitetura da Destruição: Parte II

Continuando a discussão traçada na semana anterior, hoje falarei de uma das grandes teorizações que culminaram no entendimento de que era necessário selecionar e/ou modificar a espécie humana, a fim de melhorá-la… Segue, abaixo, mais um pouquinho desta história…

A partir do final do século XVII, mas principalmente nos dois séculos seguintes, temos um acontecimento que parece novo para o mundo ocidental (em especial em localidades como Inglaterra, Alemanha, Itália, França, etc.) que é a emergência da população. Até meados do século XVII ainda víamos a constituição dos estados muito próximas da noção feudal, o povo que morava na terra não era tido como uma população, mas massa de gente que fazia parte da propriedade daquele feudo ou estado. Com a constituição da população, nos séculos seguintes, e quando digo população isso está, em certa medida, associado com a urbanização na Europa, vemos aparecer um conjunto de mecanismos, estratégias para controlar e manter a população. Esta não é mais propriedade de um estado, mas é sua razão de ser. O estado só consegue se estabelecer como Nação se existe um povo que se sente parte, sente-se conjunto que faz e produz para um bem comum e não mais para um rei, apenas. A noção de população só é possível de se ter a partir do século XIX e está relacionada a uma série de campos científicos emergentes, como a estatística e as ciências atuariais, os estudos demográficos, antropológicos e sociológicos, dentre outros (Foucault, 2002; Sennet, 2003).

Na biologia duas grandes teorias sobressaem-se às demais, no que diz respeito aos seres vivos, especificamente, mas também a um conjunto de indivíduos que vivem em conjunto. A primeira (a que falaremos brevemente hoje) é a ideia defendida por Jean-Baptiste Lamarck, em seu livro Philosophie Zoologique*, de que as características adquiridas ao longo da vida poderiam ser passadas aos descendentes, caso fossem comuns a ambos os progenitores. Nessa perspectiva evolutiva, a modificação partia do indivíduo, para melhor viver em seu ambiente.

Essas discussões, empreendidas por Lamarck, em especial na França, farão parte da constituição, quando aplicadas, ou estendidas aos seres humanos, do movimento higienista, que toma como medida preventiva para a degenerescência da espécie humana a educação e a modificação dos hábitos sociais, para transformar sua vida, melhorando as relações de saúde e de convivência social (Diwan, 2007). Tal movimento articula-se com as noções correntes de Saúde Pública e Medicina Sanitarista, que estão emergindo como grandes áreas da Medicina, nesse fim de século XVIII e início do século XIX, trata-se, assim, de uma tecnologia que procura controlar e modificar a probabilidade daqueles eventos que, individualmente são impossíveis de serem mensurados, mas populacionalmente são calculáveis, como o risco de mortes, acidentes, adoecimentos, etc. (Foucault, 2002, p. 297).

A segunda grande teoria, é claro, é a evolução pela Seleção Natural. Mas isso é o tema do próximo post!

* Observação fora da discussão do post, mas não do blog: Não sei quantas pessoas já tiveram o prazer de lerLamarck - Philosophie Zoologique este livro, pelo menos os capítulos dedicados às explicações evolutivas. Embora seja entendido como “errado” atualmente (e há muito tempo), este livro é interessantíssimo, com uma escrita simples, clara e objetiva. Ao ler os três capítulos que falam de evolução, vemos que Lamarck é muito mais do que o exemplo dos pescoços da girafa e das pernas das aves pernaltas. Suas deduções podem continuar não sendo aceitas, mas seu debate é muito mais do que o tornaram… Voltando ao livro, ele foi publicado originalmente em 1809, completando, portanto, 200 anos também! Embora menos valorizado do que o livro de Darwin, (e que o próprio Darwin) e obviamente ofuscado pelas comemorações destinadas ao grande cientista que explicou a evolução neste ano, não se pode ignorar a contribuição de Lamarck à Zoologia, tampouco à Biologia… Sempre é bom lembrar que Lamarck foi quem nomeou nossa estimada Ciência! Seu livro comemora 200 anos e, por isso, fiz esta enooorme observação sobre ele. Foi uma das grandes “descobertas” de minha formação: ler Philosophie Zoologique em uma disciplina de História e Epistemologia da Evolução. Aliás, foi uma grata alegria a todos meus colegas, pelo que me lembro.

Observação 2: Tem vários E-livros do Lamarck no Google Livros. Não consegui acessar o Domínio público hoje, o site está com pequenos problemas aparentemente. Mas acredito que também deva ter algo por lá!

Observação 3: a foto do livro foi retirada do site: http://www.decitre.fr/livres/Philosophie-zoologique-ou-Exposition-des-considerations-relatives-a-l-histoire-naturelle-des-animaux.aspx/9782080707079.

2 comentários:

Alan disse...

Olá Ana!

Muito boa a observação feita sobre Lamarck (meu candidato em um possível mestrado).

Estou preparando uma "novela" sobre ele, mas ainda faltam alguns capítulos, agora que sei que você leu "Filosofia Zoológica" vai facilitar muito, pois já sei a quem recorrer rsrs.

Muito bom post!

Ana de Medeiros Arnt disse...

Olá Alan!!

Então, eu li Lamarck, na versão traduzida para o Inglês, pois o Francês... hmm, bem... Não tá rolando (ainda, quem sabe um dia, né?). Na disciplina todos ficamos encantados com a escrita dele! E com o desenvolvimento dos argumentos e tal. Eu fiz a disciplina em Porto Alegre, na UFRGS. Lá tem uma revista bem interessante, que volta e meia sai algo sobre o assunto que é a EPISTEME (acho que tem on line)

Eu sempre achei que, embora a teoria não seja aceita, a gente tem que olhar para ela (ainda mais no campo da História) para o que ela produziu, quais os seus efeitos na sociedade... E não foram poucos não, viu? (cenas dos próximos posts... rsrs).

Enfim, espero que te encantes como eu me encantei tb... Eu sou "fã", rsrsrs

Abraço!