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quinta-feira, 2 de julho de 2009

Tragédia, comédia e conhecimento: o Teatro e a Ciência!

Há alguns dias percebi que meia hora de internet, quando bem utilizada, é surpreendente, descobrimos coisas fantásticas e ainda podemos compartilhar com o público leitor. Pois bem, encontrei uma matéira na Nature* que falava sobre a comemoração do Ano Internacional da Astronomia, uma peça de teatro que trata da relação que existia entre Galileu e o Papa Urbano VIII, achei fantástica a idéia de um grupo de teatro abordar a ciência, é um modo diferente de se conhecer a mesma, sem contar que tudo que envolve teatro é demais. O lado ruim da notícia é que a peça está em cartaz nos EUA, então, num diálogo com os colegas de faculdade alguém me disse: “pena que no Brasil não temos dessas coisas”. Foi aí que lembrei - o que nunca deveria ter esquecido – do Grupo de Teatro Arte e Ciência no Palco. Presenciei pelo menos 3 espetáculos deles e repeti a dose com a peça “After Darwin”.

Os atores são sensacionais, as peças muito instigantes e divertidas e sempre trazendo muita informação e / ou conhecimento.

Foi então que a Ana, a Alcione e este que vos escreve decidiram entrevistar o grupo ACP e quem respondeu pelo grupo foi Oswaldo Mendes, um dos integrantes do mesmo. Confira aí:

HdC - Quando surgiu o grupo?

OSWALDO MENDES – A semente do grupo Arte Ciência no Palco é o espetáculo “Einstein”, de 1998, que até hoje o ator Carlos Palma interpreta pelo Brasil afora. Ator formado pela Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo, Carlos Palma encontrou em “Einstein” o caminho para a sua volta, em definitivo e com dedicação total, ao teatro. Um ano depois da estréia em São Paulo, o espetáculo fez uma breve temporada na Casa da Ciência, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O encontro com o físico Ildeu de Castro foi o empurrão que faltava para o nascimento de um grupo de teatro voltado para a montagem de peças que tivessem as chamadas ciências naturais como tema. Foi de Ildeu a sugestão para Palma e Adriana Caruí (Produtora do ACP) irem atrás de uma peça que acabara de estrear em Londres, com grande sucesso: “Copenhagen”, de Michael Frayn. Já com o objetivo de tornar realidade o Arte Ciência no Palco, eles compraram os direitos da peça para o Brasil, em 2000. Foi ai que eu, também ator formado pela mesma Escola de Arte Dramática e durante muitos anos dividido entre o jornalismo e o teatro, conheci o então recém nascido grupo. Convidado para interpretar Niels Bohr, primeiro eu me assustei, com a complexidade da peça e do personagem. Mas movido pela intuição – e como dizem físicos do porte de Einstein e Mário Schenberg a intuição às vezes é mais importante que o raciocínio – eu aceitei o desafio de “Copenhagen”. E estou no Arte Ciência no Palco desde 2001. Vale lembrar que entre “Einstein” e “Copenhagen”, Palma e Adriana fizeram também o primeiro espetáculo infantil do grupo, “Da Vinci, Pintando o Sete”. Depois, mais cinco espetáculos, um por ano: “Perdida, uma Comédia Quântica” de Jose Sanchis Sinisterra, “Quebrando Códigos” do inglês Hugh Witemore sobre o matemático Alan Turing, “E agora, sr. Feynman?” de Peter Parnell sobre o físico Richard Feynman e o infantil “20.000 Léguas Submarinas... Ufa!” e “A Dança do Universo” para comemorar o Ano Mundial da Física, pelos 100 Anos da Relatividade, e o centenário da morte de Júlio Verne.

HdC – Qual o objetivo do projeto?

OSWALDO MENDES – O nosso objetivo é fazer teatro. Ponto final. A opção por textos com temas, digamos, científicos tem a ver as nossas necessidades de artistas e de cidadãos deste mundo em que as questões da ciência e da tecnologia ganham importância e urgência cada vez mais graves... Então nós acreditamos que mergulhar na vida e nas idéias desses personagens é uma maneira de trazer estas questões para o cotidiano das pessoas. São personagens que nos ajudam não só a entender o mundo em que vivemos, mas principalmente a pensar sobre ele, refletir sobre as questões que envolvem o conhecimento humano.

HdC – Qual o público-alvo?

OSWALDO MENDES – Por ambição artística nós diríamos que o público-alvo é todo o público, todas as pessoas que compartilham as nossas inquietações com o destino do ser humano neste planeta, neste universo em que vivemos. São as pessoas que buscam no teatro esse local de reflexão a que Brecht se referia. Ou pessoas que, como diz Michael Frayn, autor de “Copenhagen”, que gostem de ser desafiadas em seus corações e, principalmente, em suas mentes. E ai não há distinção etária nem de graus de instrução ou de formação. Tomando o nosso espetáculo “Copenhagen” como referência, ele já foi apresentado com igual êxito para platéias da comunidade cientifica e para alunos da rede pública de segundo grau.

HdC – Fale um pouco sobre “A Dança do Universo”.

OSWALDO MENDES – “A Dança do Universo” nasceu inspirada pelo livro do físico Marcelo Gleiser. Foi só inspiração porque o livro de Gleiser tem um caráter didático, seria impossível pensar em uma adaptação. Mas ele me deu o mote e a direção para que eu mergulhasse nessa maravilhosa aventura humana, o longo caminho da ignorância até o conhecimento, e o embate permanente entre essas duas forças. Nesse mergulho eu me detive na vida e nas idéias de alguns personagens que nos ajudam a entender melhor o mundo em que vivemos. E usando o teatro, a música e o humor como ferramentas, baguncei um pouco a história, indo do brasileiro Mário Schenberg ao inglês Isaac Newton e criando cenas em que, por exemplo, coloco frente a frente Kepler e Galileu ou Charles Chaplin e Albert Einstein.

HdC – Em quais estados vocês se apresentaram?

OSWALDO MENDES – Além de várias cidades do interior de São Paulo estão no nosso roteiro desde o Rio Grande do Sul ao Acre, passando por Rio de Janeiro, Paraná, Brasília, Ceará, enfim, a agenda é muito variada, felizmente. O Arte Ciência no Palco tem, no momento, cinco peças em seu repertório, com as quais viaja atendendo a convites: “Einstein”, “After Darwin”, “Copenhagen”, “E agora, sr. Feynman?” e “A Dança do Universo”.

HdC – Vocês trabalham com textos próprios?

OSWALDO MENDES – Esta é uma preocupação permanente, porque tirando alguns clássicos sempre citados, como “A Vida de Galileu” de Brecht e “Os Físicos” de Dürrenmatt, não existem muitos textos de teatro que tratem das questões da ciência. Acho até que o sucesso mundial de “Copenhagen” tenha despertado nos autores a possibilidade de trabalhar esses temas. Foi essa necessidade de textos próprios que nos levou a escrever “A Dança do Universo”, “20.000 Léguas Submarinas... Ufa!” e, anteriormente, “Da Vinci, Pintando o Sete”. Mas estamos vendo uma tendência crescente no mundo todo por uma dramaturgia voltada para esses temas.

HdC – É fácil conseguir patrocínio?

OSWALDO MENDES – A pergunta seria engraçada se não fosse trágica. Não, não é fácil. Primeiro porque a cultura do patrocínio ao teatro no Brasil é zero, com raras exceções. Segundo porque as empresas que poderiam patrocinar projetos com características tão definidas como o Arte Ciência no Palco, e ai eu falo de empresas públicas, não têm sensibilidade nenhuma por nada que não seja eventos de massas, tanto faz se esportivos ou musicais. E quando se voltam para o teatro não é o teatro que lhes interessa, mas as celebridades televisivas que eventualmente fazem teatro, algumas com mais ou menos talento, com melhores ou piores intenções ou ambições artísticas. A sorte do nosso projeto é ter encontrado mais do que patrocinadores, parceiros. Pessoas e empresas que se interessam pelo projeto e ajudam a viabilizá-lo. Nesses anos tivemos o apoio da Interprint, do Etapa Ensino e Cultura (que continua nosso parceiro), uma entidade educacional, e a Amana-Key Desenvolvimento & Educação, que tornou possível a montagem de “Copenhagen” e ainda hoje acompanha o projeto com carinho e atenção. Vale dizer que nenhuma dessas empresas recorreu a nenhuma lei de incentivo federal ou municipal para dar seu apoio ao Arte Ciência no Palco. Elas nos apoiaram por acreditar no nosso trabalho, o que aumenta a nossa responsabilidade. Elas são o modelo de patrocínio que queremos para o projeto, que sejam parceiros mais que meros patrocinadores que investem sem saber no que estão investindo.

HdC – Por que divulgar ciência no teatro?

OSWALDO MENDES – Eu respondo com outra pergunta: por que não? Quando digo que fazemos teatro e não divulgação científica é porque somos apenas e tão somente artistas de teatro. Queremos fazer sempre e melhor o que nos dedicamos a fazer, que é teatro. Mas, embora não seja esse o objetivo do grupo Arte Ciência no Palco, estamos convencidos de que é possível – pelo teatro – não só fazer o que se convencionou chamar de divulgação cientifica, mas ajudar as pessoas a pensar sobre o mundo em que vivem, a fazer do conhecimento uma deliciosa aventura e uma possibilidade de tornar, como dizia Brecht, mais suave o fardo da existência humana. No fundo é este o objetivo maior da Arte e da Ciência: fazer a vida melhor.

Caso queira conhecer mais o grupo é só visitar o site www.arteeciencianopalco.com.br, e há também alguns vídeos do grupo www.youtube.com.br/nucleoacp


* NATURE Vol 459. p 512. 28 May 2009

Agradecimentos: as autoras do Blog (Ana e Alcione), do Oswaldo Mendes e Adriana Carui que colaboraram para que a entrevista acontecesse.

terça-feira, 5 de maio de 2009

A cultura também fala da História e da Ciência…

Apensar de não ser completamente dentro do tema do Blog, julguei interessante ressaltar que Mario quintana1hoje fazem 15 anos que vivemos um Brasil sem Mário Quintana. E o que tem isso a ver com um Blog de História da Ciência?

Sempre é bom lembrar que a Ciência pode ser “feita” em laboratórios, mas ganha o mundo com sua divulgação e com seu encontro com o cotidiano! Mário Quintana é desses poetas que pode ser chamado, como diria Aldous Huxley em seu livro Situação Humana, de pontifex, ou construtor de pontes. Para Huxley, tão importante quanto produzir ciência era divulgá-la, criar pontes com a vida ordinária, a vida cotidiana, para o autor o pontifex era aquele que criava estas pontes entre laboratórios e a rua, a avenida, nossas casas, nossa vida, mas com arte! Não basta divulgar, é necessário arte para isso!

Mário Quintana possui alguns poemas vinculados ao tema da Ciência e da Biologia, bem humorados, fazem troça da prática científica, sem desmerecê-la, e mostram seu vínculo com o significado e a cultura, apresentam a ciência como produto da sociedade humana. Além disso, se Ciência é uma decorrência da nossa capacidade de pensar, qual o motivo de não vincular isso à poesia, quando esta nos põe a refletir sobre o que está a nossa volta? Hoje, após 15 anos de sua partida, é dia de lembrar desse grande poeta brasileiro e de sua contribuição para nossa cultura – brasileira e, porque não, científica!!!

Assim, deixo minha homenagem ao poeta gaúcho, com o poema abaixo, em que Quintana, ao falar da incompletude da poesia me faz pensar no que é fazer ciência, e sua impossibilidade de estar, um dia, pronta e acabada, responder todas as perguntas…

Aproximações 
Todo poema é uma aproximação. A sua incompletude é
que o aproxima da inquietação do leitor. Este não quer que lhe
provem coisa alguma. Está farto de soluções. Eu, por mim, lhe
aumentaria as interrogações. Vocês já repararam no olhar de
uma criança quando interroga? A vida, a irrequieta inteligência
que ele tem? Pois bem, você lhe dá uma resposta instantânea,
definitiva, única — e verá pelos olhos dela que baixou vários
risquinhos na sua consideração.
(Mário Quintana, A vaca e o hipogrifo, 1979, p. 48)

segunda-feira, 23 de março de 2009

Reflexões sobre cultura científica

Texto do professor Maurício Façanha Pinheiro, publicado no Diário do Nordeste em outubro de 2006.

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As descobertas científicas raramente são percebidas como manifestações culturais, pois infelizmente, as palavras cultura e ciência, ao invés de estarem associadas respectivamente a gênero e espécie, têm sido utilizadas em nossa língua portuguesa, falada no Brasil, para representar produções humanas distintas, quase opostas. Quando se diz que uma pessoa é culta, a imagem que se forma é de conhecimento vasto, enciclopédico, aquela que sabe de tudo um pouco. O estereótipo de cientista, ao contrário, é daquela pessoa alheia ao mundo, envolta em suas pesquisas, limitadas a uma área específica, sabe muito de muito pouco. O questionamento sobre essa contraditoriedade de conceitos é o objeto principal desta edição.

A arte, enquanto produção cultural mais antiga, para grande número de cientistas não tem valor ´científico´, e infelizmente poucos cientistas renomados demonstram sensibilidade suficiente para apreciar poemas e melodias. Se vivesse nesse mundo cientificista, o que diria Kepler, que acreditava na dança das esferas celestes, na música e na matemática como códigos divinos da natureza? Sem a concepção mística dos astros, talvez não tivesse descoberto que as trajetórias dos planetas são elípticas e não circulares, como defendera severamente Galileu, tentando até mesmo ridicularizá-lo por refutar esse aspecto de sua tese heliocêntrica.

Impossível não lembrar de Einstein, talvez a figura científica mais conhecida, principalmente pela caricaturada foto irreverente com a língua pra fora. Desenvolveu sensibilidade e imaginação tocando seu violino desde a infância e especificou em testamento a doação do seu instrumento musical ao neto.

Um professor seu chegou a dizer: ´o único estudante aqui capaz de tocar uma sonata de Beethoven com sentimento é Einstein´. Escreveu o físico a uma colega pianista sobre seu violino: ´Só com ele eu digo e canto para mim mesmo coisas que, em pensamentos sóbrios, nem admito´.

Como princípio do conhecimento humano, a Filosofia, suntuosa nas primeiras universidades (ainda hoje algumas conferem o título de Doutor em Filosofia, Philosophy Doctor, PhD), passou a ser desprezada com o estabelecimento da ciência moderna. Da época em que os primeiros cientistas ainda se denominavam filósofos naturais, destaca-se aquele que afirmou ter se apoiado nos ombros de gigantes para chegar mais longe, cujos historiadores associam sua coragem em enunciar leis sobre forças misteriosas entre dois corpos a seus estudos alquimísticos. O livro de Sir Isaac Newton mais famoso foi ´Philosophiae naturalis principia mathematica´, mais conhecido como ´Principia´, considerado a obra científica mais importante já escrita.

Vislumbramos, à direita, a capa da primeira edição do livro de Newton, com suas correções manuscritas para a segunda edição.

A Filosofia, entretanto, passou a ser um conhecimento cada vez menos valorizado pelas chamadas ciências naturais, chegando ao absurdo atual, de um doutor em Física, por exemplo, acreditar que pode prescindir da Filosofia. O físico e filósofo Mario Bunge, nosso ´hermano´ argentino pouco conhecido, Doutor Honoris Causa em várias universidades européias e norte-americanas, chega a afirmar: ´Todo cientista nutre posturas filosóficas, embora freqüentemente nem todos o façam de maneira totalmente consciente´.

Compreender a ciência sem a História e Filosofia envolvidas, é impossível e inadmissível que seja dogmaticamente ´pregada´ por muitos de nossos ´falsos pastores´ acadêmicos, pesquisadores e não professores. Há anos formam gerações de cientistas nas duas maiores universidades de nosso estado.

Alguns recentemente têm se dedicado a pesquisas em educação e aos cursos de formação pedagógica e especializações (cursos pagos em universidades públicas), a despeito da ausência de conhecimentos básicos na área, por nem terem cursado licenciatura, infelizmente não exigida para o nível superior.

Enquanto que em estados como o Maranhão, Filosofia faz parte das disciplinas iniciais em quase todos os cursos de sua universidade federal (UFMA), escola em que me iniciei na vida acadêmica, na UFC - Universidade Federal do Ceará, onde concluí minha licenciatura em Química e lecionei por mais de dois anos, essa disciplina ainda está presente em poucos cursos, mesmo entre as licenciaturas. Até bem pouco tempo, para esses currículos, ´prescreviam´ como se fosse um remédio importado, o modelo francês, conhecido como três mais um (três anos de ´formação científica´ e um de pedagógica, uma infeliz adaptação dos cursos de bacharelado.

Esse desinteresse pela Filosofia e pela história do conhecimento que se ensina tem sido objeto de inúmeros estudos e é um dos motivos de uma prática pedagógica inconsciente. Atualmente as licenciaturas, por força de lei, a nova LDB - Lei de Diretrizes e Bases da Educação, têm incluído em seus currículos Filosofia da Ciência e História da Ciência, sendo que as universidades carecem de pessoal qualificado para ministrar tais disciplinas, pois somente em alguns cursos de pós-graduação esses conhecimentos são aprofundados.

O MEC - Ministério da Educação, em decisão acertadíssima, no dia 11 de setembro, homologou decisão do CNE - Conselho Nacional de Educação - determinando o ensino de Filosofia e Sociologia nas escolas públicas e privadas, prática já comum em vários estados. A exclusão foi imposta durante a ditadura e seu retorno às salas de aula foi vetado em 2001 pelo então presidente sociólogo. Acredita-se que a reinclusão dessas disciplinas na educação básica poderá motivar a juventude a pensar com liberdade e ética, pressuposto para desenvolver cidadania e humanismo. Com isso, espera-se que os estudantes ingressem nas universidades com um embasamento filosófico indispensável para a compreensão da metodologia científica, outra disciplina ausente muitos cursos das nossas instituições de ensino superior.

A História inevitavelmente une os conhecimentos científicos aos culturais. Infelizmente as escolas têm conseguido dissociá-los e até fazer parecerem incompatíveis. Em nossas universidades poucas graduações oferecem os conhecimentos históricos acerca de seu objeto de estudo. Similar tem sido a clássica divisão entre ciências sociais e naturais, ainda hoje usadas pelo CNPq - Conselho Nacional de Pesquisa, órgão máximo da atividade científica em nosso país. Divide-se o conhecimento em humanas e exatas (desumanas?), subjetivo e objetivo ...

Cultura e ciência são igualmente conseqüências da inteligência humana, porém com o advento da ciência mecanicista, a idéia de inteligência se desvinculou dos outros saberes humanos. Com uma linguagem específica, caracterizando o que Bachelard denominou de Comunidade Científica, esse grupo de intelectuais tem se destacado entre os demais, superando em prestígio os filósofos. Uma comunidade que ostenta o título de detentora da verdade, ilusão consolidada pelo conforto propiciado pelas invenções tecnológicas.

A Ciência, ou melhor, a comunidade científica, tem se fechado em suas especializações cada vez mais restritas, ao invés do meio cultural, sempre aberto a novas e renovadas criações artísticas, peculiaridade humana que reflete seu potencial criador. É emblemático o caso dos médicos, já me consultei com um que se diz especialista em cotovelo. Será que algum dia teremos dois especialistas como esse, um para o cotovelo direito e outro para o esquerdo?

Como educador, antes de cientista, elaborei algumas perguntas durante nosso IV Encontro de Iniciação Científica, que apresento para contribuir com o aprimoramento de uma cultura científica em nosso estado. Se a dúvida é o princípio da certeza, como bachelardiano, transmutei o ´cogito ergo sum´ cartesiano em um poema surracionalista: ´Sinto! E logo, existo. E insisto: a espécie humana pode se tornar insana...´.

Questionamentos sobre a ciência

Observador paulofreireano, nem um pouco imparcial, sinto-me à vontade para levantar questionamentos que podem levar a reflexões importantes, no objetivo fundamental da atividade científica: a busca da verdade. Diante do elevado número de pessoas envolvidas nos diversos programas de iniciação científica nas universidades e centros de pesquisa, torna-se indispensável uma reflexão sobre o papel de sua contribuição para uma humanização da cultura científica.

Nossas atividades científicas infelizmente têm sido influenciadas pela hegemonia de um modelo mecanicista e fragmentado e como tal, impossibilitado de apreender a realidade, una, inter-relacionada a diversos fatores. Edgard Morin afirma em seu livro Ciência com Consciência: ´Se tentarmos pensar o fato de que somos seres simultaneamente físicos, biológicos, sociais, culturais, psíquicos e espirituais, é evidente que a complexidade reside no fato de se tentar conceber a articulação, a identidade e a diferença entre todos estes aspectos, enquanto o pensamento simplificador ou separa estes diferentes aspectos ou os unifica através de uma redução mutiladora´.

Na iniciação científica, muitos aspectos importantes são negligenciados, como a emoção da primeira apresentação científica, comum a muitas das mentes brilhantes iniciadas nessa privilegiada comunidade. Apesar das mãos e voz trêmulas, demonstram em encontros científicos coragem hercúlea para vencer esses e outros obstáculos dignos de verdadeiros heróis.

Eis minhas perguntas:

Por que endeusamos tanto ´a Ciência´, a ponto de lhe chamar assim, personificando a atividade realizada por cientistas, estas, sim, pessoas? Acaso os métodos de pesquisa não foram criados por cientistas, pessoas criativas, muitas lhes dando o próprio nome? Poderíamos considerar, então, estágios de iniciação científica tão importantes como o de Michael Faraday, que iniciou sua vida de cientista encadernando livros e veio a se tornar um dos maiores de toda a História.

Por quais motivos as universidades relegaram às ditas ciências humanas ou sociais a Oratória ou a Dialética, como se para quem se dedica às ciências chamadas de exatas ou naturais, não fosse importante saber comunicar corretamente os resultados das pesquisas e expor publicamente suas idéias? Como poderiam ser maravilhosas as exposições em encontros, se durante o estágio, fossem dadas mais oportunidades para apresentações orais!

Por que será que a emoção ficou relegada à Psicologia, como objeto de estudo, como se todas as pessoas humanas não fossem feitas de carne e osso, mas também de nervos e sensações? Nervos muitas vezes à flor da pele, como geralmente presenciamos em algumas apresentações cujo conteúdo é tão formidável que supera o nervosismo explícito.

Por que alguns cientistas que se dedicam mais à pesquisa parecem se dedicar menos ao ensino, como se no lema universitário ´Ensino, Pesquisa e Extensão´ não aparecesse em primeiro lugar o ensino? Por acaso existiria pesquisa hoje, se não pudéssemos ter nos apoiado nos ombros de gigantes, parafraseando Newton? Que nossos ombros sejam também apoio para que a iniciação científica possa ser catalisada pela afetividade, que, se não é indispensável, melhora muito a relação entre orientadoras e orientadas e conseqüentemente a aprendizagem.

Por que muitas vezes são chamados de futuros cientistas, se o presente já é vivido com tanto rigor científico, se já assumem tarefas tão importantes nos ciclos de pesquisa, responsabilidade tamanha para qual muitas vezes nem foram devidamente preparadas, como para enfrentar os perigos inerentes às atividades em laboratório?

Por que não oferecer então prêmios a todas as horas dedicadas ao trabalho, principalmente de quem exerce suas atividades de pesquisa de forma voluntária, sem ganhar ajuda financeira, menos importante que a experiência e conhecimento adquiridos, porém indispensável para sua manutenção, tanto como para qualquer trabalhador?

Enfim, me pergunto o quanto lhes transmitimos o orgulho de poder contribuir para a pesquisa científica, cujos resultados, muitas vezes questionados, um dia poderão beneficiar toda a humanidade, fazendo por merecer o título de cientista. Será que lhes ajudamos a compreender como seu empenho pode vir a ser reconhecido no futuro, como o de muitas pessoas que se eternizaram na História pelas suas contribuições à ciência e à cultura?


PERFIS


Albert Einstein

Foi um dos mais geniais cientistas de todos os tempos. Seu nome hoje é usado como sinônimo de inteligência. Prêmio Nobel de Física em 1922, é autor da Teoria da Relatividade, que revolucionou a ciência e até hoje é alvo de estudos e um grande desafio para os físicos modernos. Entre mudanças de cidades e falências de seu pai, enfrentou o autoritarismo da escola alemã e o anti-semitismo intenso naquela época. Aos sete anos revelou a vocação: demonstrou o Teorema de Pitágoras, para seu tio Jakob, que poucos dias antes lhe ensinara os fundamentos da Geometria. Nunca mais parou.

Johannes Kepler

Viveu entre os anos 1571 e 1630. Estudou inicialmente para seguir carreira teológica. Na Universidade leu sobre os princípios de Copérnico e logo se tornou um entusiástico defensor do heliocentrismo. Em 1594 conseguiu um posto de professor de matemática e astronomia em uma escola secundária em Graz, na Áustria, mas poucos anos depois, por pressões da Igreja Católica - era protestante - foi exilado, e foi então para Praga trabalhar com Tycho Brahe. Sorte da ciência que via nascer ali um de seus mais expressivos pesquisadores.

Michael Faraday

Nasceu em 22 de setembro de 1791, em Newington Butts, Surrey, em Londres. Seus pais enfrentavam dificuldades financeiras para proporcionar boa formação educacional para os filhos. Aos 13 anos, Faraday havia aprendido somente o necessário para ler, escrever e um pouco de matemática, mas já trabalhava numa livraria. Esse trabalho lhe proporcionou um amplo contato com livros e despertou sua curiosidade e interesse pelas ciências. Ele lia tudo o que lhe permitiam. Foi um dos maiores gênios da ciência no século XIX.

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Maurício Façanha Pinheiro

Professor de Química do IFRN. Licenciado em Química pela Universidade Federal do Ceará (2002), Especialista em Docência do Ensino Superior pela Universidade Estadual do Ceará (2006) e mestrando em Ensino de Ciências Naturais e Matemática (UFRN). Experiência em Educação Química nos níveis médio e superior.


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