sexta-feira, 12 de julho de 2013

Claude Bernard, parte I

Hoje, 12 de julho de 2013 é um dia significativo, pelo menos para este que vos escreve.
Por diversos motivos, mas cabe aqui destacar apenas dois deles:
1º o bicentenário do nascimento de Claude Bernard (1813-1878); 
2º depois de um tempo  de estudo eu aprendi um pouco mais sobre o que é história da ciência e algumas coisas importantes sobre historiografia da história da ciência.
A respeito do segundo ponto eu darei maior profundidade num próximo post. O de hoje é pra celebrar os 200 anos do nascimento de Claude Bernard!
Homenagem do google.fr em 12/07/2013 feita ao fisiologista Claude Bernard.






Num esforço de não deixar o post com cara de Wikipédia eu vou tentar abordar aspectos da vida desse fisiologista que mudaram mais ainda minha concepção de ciência.  



 Claude Bernard foi um médico fisiologista que nasceu em Saint Julien, na França. Seus pais eram trabalhadores de uma vinícola na região de Beaujolais (hoje consumirei tal vinho!). Seu trajeto estudantil e profissional foi basicamente entre Lyon e Paris. Primeiro ele saiu de sua cidade natal para trabalhar como aprendiz de boticário em Lyon, aos 19 anos de idade. Em seus estudos ele teve uma formação mais voltada para a área de humanidades  e por isso estava mais inclinado para o teatro e as letras do que para a medicina e/ou fisiologia. Chegou a escrever um drama-heroico (Arthur de Bretagne) e foi para Paris tentar seguir a carreira literária. Foi então que um crítico literário daquele período o aconselhou a primeiro conseguir um emprego de verdade para depois se dedicar aos escritos do gênero.

Trajeto de Claude Bernard de Lyon à Paris
No mesmo ano que ele tomou esse balde de água fria, que era o de 1834, ele entrou para a Escola de Medicina de Paris. Em 1839, ele foi aprovado no exame para a residência médica, foi o 26º numa lista de 29 aprovados, o que mostra que ele não era “um gênio”, um “homem expecional”, etc. Trabalhou como o que hoje conhecemos como  iniciação científica para François Magendie (1783-1855), o seu mentor e orientador. 

Entre 1834 e 1844 ele realizou diversos experimentos ligados à fisiologia. Como não tinha recursos próprios, ele utilizava dos laboratórios de alguns professores e de seus colegas de pesquisa. No ano de 1844 ele foi reprovado no exame para o cargo de professor na Escola de Medicina de Paris (outra baixa!) e decidiu que voltaria para sua terra natal para trabalhar como médico rural, atendendo a população local. Ele acabou não retornando,  pois se casou com a filha de um médico, cujo dote lhe garantiu recursos pra continuar na cidade com suas pesquisas.

No mesmo ano em que ele tomou esse balde de água fria, que era o de 1834, ele entrou para a Escola de Medicina de Paris. Em 1839 ele foi aprovado no exame para residência médica, foi o 26º num lista de 19 aprovados, o que mostra que ele não era necessariamente "um gênio", "um homem excepcional", etc. Claude Bernard trabalhou como o que hoje conhecemos como iniciação científica para François Magendie (1873-1855), o seu mentor e orientador.

Em 1847 ele começou a trabalhar como substituto de Magendie no Collège de France e daí pra frente as coisas progrediram muito em sua carreira. Claude Bernard passou por diversas instituições importantes da França e recebeu diversas premiações pelos trabalhos realizados em fisiologia. Em 1869 ele foi nomeado senador no império de Napoleão III.  

Suas principais descobertas foram realizadas entre 1843 e 1860. Mas 1865 foi o ano que marcou a carreira de Claude Bernard. Ano em que ele publicou o livro Introduction à l’étude de la médecine expérimentale (Introdução ao estudo da Medicina Experimental). Livro que até hoje é discutido no meio científico e filosófico. No meio dito científico por conta dos “roteiros experimentais” que ele estabeleceu com base em seus experimentos, no meio filosófico pela rica discussão sobre os métodos de experimentação com seres vivos. 
Capa da primeira edição do livro Introduction à l'étude de la médecine expérimentale.
Existem ainda diversas coisas para serem relatadas sobre ele, mas o que mais me chamou a atenção aqui e nas fontes que consultei é que Claude Bernard, pelo que mostram os documentos, não foi um gênio, um ser que descobriu e realizou tudo sozinho, ele cometeu erros, teve suas frustrações e reprovações, mas nem por isso deixou de ser reconhecido no meio em que atuava.

Bom, deixo aqui esta singela homenagem ao fisiologista que trouxe grandes contribuições para as ciências biológicas, mais especificamente para a fisiologia. E fica aqui a promessa de periodicamente postar alguns textos sobre seus experimentos e suas discussões sobre eles. 

Feliz aniversário Claude Bernard!

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Retomando

Olá olá!

A retomada das postagens (depois de muita resignação e cautela) se dará com a apresentação de alguns trechos dos artigos relacionados no Trailblazing, em comemoração aos 350 (em 2010) da Royal Society de Londres. Atesto que o objetivo aqui não é traduzir todos os artigos na íntegra, mas tentarei contribuir de modo a te fazer no mínimo refletir um pouco mais sobre alguns aspectos da ciência.


Então, um feliz 2011 e boa leitura!


Transfusão de sangue de um cão para outro

Em 1666 Boyle deu uma contribuição deveras macabra para um dos primeiros passos referentes à transfusão de sangue entre animais, no caso, dois cães. No ano seguinte, Richard Lower também realizou a primeira transfusão de sangue entre uma ovelha e um humano. Ele era um dos principais cirurgiões de sua época estava envolvido em descobertas pioneiras sobre a circulação e respiração. Embora Lower compreendesse a utilidade das transfusões de sangue seguida de injúria ou outra perda sanguínea, em humanos muitas vezes causava severas e até fatais reações. Dez anos depois a prática fora banida pelo Parlamento. Depois de 200 anos uma compreensão dos grupos sanguíneos tornou a rotina de transfusões possíveis.1


Transfusão de sangue de um bezerro para um homem, ca 1705.

© Wellcome Library, London


O interessante do artigo é que, ao invés de explicar um mundo de coisas ele vem carregado de questionamentos e sem nenhuma resposta. O que considero ótimo, pois nos ajuda a compreender que em ciência as perguntas, na maioria das vezes, são muito mais valiosas do que as respostas. Veja algumas delas:


“2. Se imediatamente após a desvinculação de um Cão, ocorrer o abastecimento com sangue adventício, ele saberá bajular seu mestre e fazer as coisas costumeiras de antes? E ele saberá fazer as coisas melhor ou pior após algum tempo passado da Operação?”2


“5. [...] alguma mudança considerável é observada na Pulsação, Urina e outros Excrementos do Recipiente Animal devido a Operação?[...]” 2


“10. Se um pequeno Cão jovem, por ser muitas vezes abastecido com o sangue de um Cão, também jovem, de uma raça de tamanho maior, ele crescerá mais do que o tamanho de sua própria raça?” 2


“13. Se a Operação tiver sucesso em suas práticas, (o que pode ocorrer) no caso do sangue injetado ser de um Animal de outra espécie, como o sangue de um Bezerro em um Cão, [...] ou (o sangue de) um Animal de Sangue Frio como um Peixe, um Sapo ou uma Tartaruga (ser injetado) nos Vasos de um Animal de Sangue Quente e vice-versa?” 2


Alguma sugestão de resposta? Envie-nos.


1.Traduzido e adaptado de Daniel Glasser, Welcome Trust in Trialblazing

2.Traduzido e adaptado de Tryals Proposed by Mr. Boyle to Dr. Lower, to be Made by Him, for the Improvement of Transfusing Blood out of One Live Animal into Another disponível em http://dx.doi.org/10.1098/rstl.1665.0147

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Os botões de Napoleão: as 17 moléculas que mudaram a história

Queria dar uma dica de livro, como o colega Alan fez no post anterior. Trata-se do Os botões de Napoleão: as 17 moléculas que mudaram a história, de Penny Le Courteur e Jay Burreson.

Será que podemos explicar o fracasso da campanha de Napoleão na Rússia, em 1812, por algo tão insignificante quanto um botão? Quando exposto a temperaturas baixas, o estanho se esfarela, e todas as fardas dos regimentos de Napoleão eram fechadas com botões feitos desse material.

Com estilo cativante, temperado com diversas histórias curiosas, a professora de química Penny Le Couteur e o químico industrial Jay Burreson fazem uma fascinante análise de 17 grupos de moléculas que, como o estanho daqueles botões, influenciaram o curso da história. Essas moléculas produziram grandes feitos na engenharia e provocaram importantes avanços na medicina e no direito. Além disso, determinaram o que hoje comemos, bebemos e vestimos. Ao revelar as espantosas conexões químicas que unem eventos aparentemente não relacionados, os autores esclarecem que:
  • Por causa da química, a colônia Nova Amsterdã tornou-se Nova York.
  • Um contratempo na limpeza da cozinha com um avental de algodão resultou no desenvolvimento dos explosivos modernos e da indústria cinematográfica.
  • A ânsia dos europeus pela cafeína, um alcalóide que vicia, levou à Revolução Chinesa.
  • Foi um laboratório químico que, em busca de um analgésico potente, criou a heroína.
Leiam! Vocês irão gostar!

Sugestão de Leitura

Agora sim: Feliz 2010 p/ todo mundo! Pois janeiro foi um mês de férias (ou não) e não vou me surpreender se alguém me disser que o ano só vai começar "de verdade" depois do carnaval... pois bem, depois temos a copa, temos as eleições, temos o corinthians na libertadores... é... será um ano "de festa", muita gente vai passar mais tempo em casa do que no trabalho ou nas aulas.

E é esse o grande motivo do post de hoje: se vamos ficar em casa, leiamos!

Achei interessante o livro por conta de um tema que me atraiu para o mestrado, Lamarck, pelo que me consta muitos estão reconsiderando a sua grande importância na História da Ciência, haja visto que o mesmo cunhou o termo BIOLOGIA, foi um dos primeiros a se pronunciar como evolucionista de fato dentre uma série de outras coisas que abordarei num post futuro, entre elas uma singela crítica a alguns trechos deste livro que indicarei.




Título: EVOLUÇÃO EM QUATRO DIMENSÕES - DNA, comportamento e a história da vida (520 páginas)
Editora: Companhia das letras
Tradução: Cláudio Angelo
Lançamento: 29/01/2010 (previsão da editora)
Preço: R$59,00







A Obra:
*O francês Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829) seria a última pessoa que alguém poderia pensar em chamar para salvar a teoria da evolução de Charles Darwin. Afinal, Lamarck acabou entrando para a história como o autor da teoria evolutiva errada, e "lamarckismo" virou sinônimo de engano para os biólogos. Isso porque sua teoria pregava a herança de caracteres adquiridos, quando Darwin mostraria corretamente que a evolução ocorre por meio da seleção natural de variações aleatórias.
Em Evolução em quatro dimensões, Eva Jablonka e Marion J. Lamb resgatam as ideias do maltratado naturalista francês. Segundo as autoras, o darwinismo hoje precisa de uma reforma, de uma nova síntese - e tal síntese passa pela incorporação do lamarckismo na teoria evolutiva. Descobertas da biologia molecular nos últimos cinquenta anos mostram que a evolução vai além da seleção de variações casuais nos genes.
As autoras identificam quatro "dimensões" na evolução - quatro sistemas de herança que desempenham um papel na evolução: a genética, a epigenética (ou transmissão de características celulares, alheia ao DNA), a comportamental e a simbólica (transmissão por meio da linguagem e de outras formas de comunicação simbólica). Em todos esses sistemas ocorre alguma
herança de caracteres adquiridos, novamente uma heresia lamarckista que Jablonka e Lamb incorporam ao repertório do darwinismo, não para derrubá-lo, mas para mostrar que há muito mais variação disponível para a seleção natural do que sonha a biologia.

Guardem os grifos em vermelho, façam uma boa leitura e reflitam, mais tarde trataremos destes destaques.


*fonte: Editora Companhia das letras

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Planos para 2010


Estimados leitores, 2009 já está no seu fim, então olhemos para o horizonte que possivelmente avistaremos possibilidades de nos reunirmos fora da blogosfera para discutirmos sobre História das Ciências, e suas possíveis e tão sonhadas aplicações no ensino:



Comecemos pelo Encontro de Filosofia e História da Biologia, que ocorrerá em agosto (de 11 a 13) no Instituto de Biociências da USP e se não houver enchente nem engarrafamento certamente estarei lá.
A programação ainda não está completa, mas já tem bastante informação sobre o evento no site da ABFHiB (Associação Brasileira de Filosofia e História da Biologia).


E teremos também a 1ª Conferência Latino Americana do Grupo Internacional de História, Filosofia e Ensino de Ciências - IHPST LA que ocorrerá também em agosto (de 19 a 21), no Maresias Beach Hotel, na Praia de Maresias em SP. Que será precedida de outro evento que ocorrerá no mesmo local, o 8th International Conference for the History of Science in Science Education - ICHSSE, que ocorrerá de 16 a 19 de Agosto de 2010. A programação deste evento estará disponível em janeiro.

Farei as devidas atualizações neste post na medida em que forem surgindo mais informações.

Amplexos Natalinos!!!




quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Quer História da Ciência? Então experimente isso.

Antes de ler este post inteiro peço a você estimado leitor que reflita sobre algumas questões que possivelmente já te encontraram (ou não) em algum momento nesta sua breve passagem pelo planeta Terra.

  • Você sabe quem foi o DEUS que fez a perfeita combinação do cacau e leite?
  • Quem foi que te disse que a impressão digital é única em cada indivíduo?
  • E aquelas unidades de medida que você viu no ensino médio, no pré-vestibular ou até na faculdade, mas nem faz idéia do por que dos nomes delas? O que estes cientistas fizeram para merecer a devida homenagem?
  • Algum dia te disseram que os raios conduzem eletricidade? Quem foi o louco gênio que testou isso?
  • E a idéia de que África e América do Sul são terras que se complementam, onde foi que você viu isso? Quais foram as evidências?
  • Existe uma solução “mais fácil” para evitar o aquecimento global?
  • De todas as Estórias que te contaram quando te apresentavam algum conceito de biologia, física ou química durante as tuas aulas, te contaram uma História também?

Pois bem, no ano de 2010 comemoram-se os 350 anos da Royal Society de Londres e pra celebrar a instituição disponibilizou ao público o site com uma linha do tempo interativa o Trailblazing.


O site é fantástico, há nele 60 artigos das diversas áreas da ciência disponíveis para leitura, artigos de grande impacto na sociedade como um todo.

Não vou me estender muito aqui porque não quero que você perca o seu tempo lendo meus elogios à página, mas que o aproveite lendo. Depois volte aqui e comente e se precisar de algum auxílio pode entrar em contato, pois nestas férias tentaremos disponibilizar uma resenha (em português) de cada um dos artigos.


Dica do Enio Yoshinori.

Figuras retiradas dos artigos no site Trailblazing (http://trailblazing.royalsociety.org/).



segunda-feira, 2 de novembro de 2009

VIII Jornadas Latinoamericanas de Estudios Sociales de la Ciencia y la Tecnología

Recebi hoje a notícia de um evento que tem tudo para ser interessantíssimo… Além do tema ser de uma relevância ímpar para os Estudos da Ciência, é em Buenos Aires! O que sempre é um prazer reviver, reconhecer, reencontrar…

Abaixo as informações do evento:

Datas: de 16 a 19 de julho de 2010]

Tema do Evento: Ciência e Tecnologia para a Inclusão social na América Latina

Inscrição de Resumos até 27 de fevereiro de 2010 (tem tempo!!!), nos idiomas Português, Inglês, Espanhol e Francês.

Os resumos aceitos poderão enviar o trabalho completo até 15 de junho de 2010.

Temas para submissão de trabalhos:

1.Desafíos e historia de las políticas de ciencia y tecnología en los paises de Iberoamérica
2.Instituciones, disciplinas y campos de la ciencia y la tecnología
3.Tecnología, Innovación y Sociedad
4.Procesos de producción y uso del conocimiento científico y tecnológico
5.Participación de los públicos, comunicación y democratización
6.Los riesgos de la ciencia y la tecnología
7.Debates teóricos y metodológicos en el estudio social de la ciencia y la tecnología
8.Dimensiones internacionales de la ciencia y la tecnología
9.Educación CTS y Educación Superior
10.Las tecnociencias emergentes

Mais informações no site do evento e na primeira convocatória para submissão do trabalho.

Arquitetura da Destruição: Parte II

Continuando a discussão traçada na semana anterior, hoje falarei de uma das grandes teorizações que culminaram no entendimento de que era necessário selecionar e/ou modificar a espécie humana, a fim de melhorá-la… Segue, abaixo, mais um pouquinho desta história…

A partir do final do século XVII, mas principalmente nos dois séculos seguintes, temos um acontecimento que parece novo para o mundo ocidental (em especial em localidades como Inglaterra, Alemanha, Itália, França, etc.) que é a emergência da população. Até meados do século XVII ainda víamos a constituição dos estados muito próximas da noção feudal, o povo que morava na terra não era tido como uma população, mas massa de gente que fazia parte da propriedade daquele feudo ou estado. Com a constituição da população, nos séculos seguintes, e quando digo população isso está, em certa medida, associado com a urbanização na Europa, vemos aparecer um conjunto de mecanismos, estratégias para controlar e manter a população. Esta não é mais propriedade de um estado, mas é sua razão de ser. O estado só consegue se estabelecer como Nação se existe um povo que se sente parte, sente-se conjunto que faz e produz para um bem comum e não mais para um rei, apenas. A noção de população só é possível de se ter a partir do século XIX e está relacionada a uma série de campos científicos emergentes, como a estatística e as ciências atuariais, os estudos demográficos, antropológicos e sociológicos, dentre outros (Foucault, 2002; Sennet, 2003).

Na biologia duas grandes teorias sobressaem-se às demais, no que diz respeito aos seres vivos, especificamente, mas também a um conjunto de indivíduos que vivem em conjunto. A primeira (a que falaremos brevemente hoje) é a ideia defendida por Jean-Baptiste Lamarck, em seu livro Philosophie Zoologique*, de que as características adquiridas ao longo da vida poderiam ser passadas aos descendentes, caso fossem comuns a ambos os progenitores. Nessa perspectiva evolutiva, a modificação partia do indivíduo, para melhor viver em seu ambiente.

Essas discussões, empreendidas por Lamarck, em especial na França, farão parte da constituição, quando aplicadas, ou estendidas aos seres humanos, do movimento higienista, que toma como medida preventiva para a degenerescência da espécie humana a educação e a modificação dos hábitos sociais, para transformar sua vida, melhorando as relações de saúde e de convivência social (Diwan, 2007). Tal movimento articula-se com as noções correntes de Saúde Pública e Medicina Sanitarista, que estão emergindo como grandes áreas da Medicina, nesse fim de século XVIII e início do século XIX, trata-se, assim, de uma tecnologia que procura controlar e modificar a probabilidade daqueles eventos que, individualmente são impossíveis de serem mensurados, mas populacionalmente são calculáveis, como o risco de mortes, acidentes, adoecimentos, etc. (Foucault, 2002, p. 297).

A segunda grande teoria, é claro, é a evolução pela Seleção Natural. Mas isso é o tema do próximo post!

* Observação fora da discussão do post, mas não do blog: Não sei quantas pessoas já tiveram o prazer de lerLamarck - Philosophie Zoologique este livro, pelo menos os capítulos dedicados às explicações evolutivas. Embora seja entendido como “errado” atualmente (e há muito tempo), este livro é interessantíssimo, com uma escrita simples, clara e objetiva. Ao ler os três capítulos que falam de evolução, vemos que Lamarck é muito mais do que o exemplo dos pescoços da girafa e das pernas das aves pernaltas. Suas deduções podem continuar não sendo aceitas, mas seu debate é muito mais do que o tornaram… Voltando ao livro, ele foi publicado originalmente em 1809, completando, portanto, 200 anos também! Embora menos valorizado do que o livro de Darwin, (e que o próprio Darwin) e obviamente ofuscado pelas comemorações destinadas ao grande cientista que explicou a evolução neste ano, não se pode ignorar a contribuição de Lamarck à Zoologia, tampouco à Biologia… Sempre é bom lembrar que Lamarck foi quem nomeou nossa estimada Ciência! Seu livro comemora 200 anos e, por isso, fiz esta enooorme observação sobre ele. Foi uma das grandes “descobertas” de minha formação: ler Philosophie Zoologique em uma disciplina de História e Epistemologia da Evolução. Aliás, foi uma grata alegria a todos meus colegas, pelo que me lembro.

Observação 2: Tem vários E-livros do Lamarck no Google Livros. Não consegui acessar o Domínio público hoje, o site está com pequenos problemas aparentemente. Mas acredito que também deva ter algo por lá!

Observação 3: a foto do livro foi retirada do site: http://www.decitre.fr/livres/Philosophie-zoologique-ou-Exposition-des-considerations-relatives-a-l-histoire-naturelle-des-animaux.aspx/9782080707079.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Arquitetura da Destruição: Eugenia, Biologia, História e outras coisinhas mais

Recentemente fui convidada por um colega da Universidade em que trabalho, a discutir sobrearquiteturadadestruição as relações entre Eugenia, Ciências Biológicas, História e outras coisas mais que eu quisesse falar, relacionado ao documentário “Arquitetura da Destruição”, dirigido por Peter Cohen. O evento em que eu falei vincula-se a um projeto de Extensão voltado à comunidade universitária. Eu, particularmente, adorei o convite, claro! Pois o tema aproxima-se de minha pesquisa de doutorado e sempre é um prazer discutir esses temas que me levam pelos caminhos da pesquisa…

Resolvi adaptar parte do que eu levei ao debate, que foi extremamente produtivo a meu ver, para o nosso blog, afinal, falei de história da ciência o tempo todo, praticamente! O texto completo terá 5 partes, para não ficar muito cansativo de ler… Neste primeiro post apresentarei o documentário e algumas discussões que nos posts seguintes serão aprofundados, ok?

Este documentário tem como grande diferencial, em relação a inúmeras outras produções e estudos no campo da eugenia e da história da segunda guerra, apresentar o vínculo das ações militares e da política com a estética e a arte.

No filme há a descrição de que as ideias de busca pela perfeição são percebidas através da arte. É com a arte que Hitler representa o que é belo, bonito, forte, desejável e aquilo que deve ser colocado à margem. Para Hitler, a arte, assim como a espécie humana, está se deteriorando. Ou melhor, a arte moderna esta que estuda formas, cores e a relação entre luz e sombra, promovendo percepções de diferentes aspectos ou configurações humanas representa e idealiza o quanto nós estamos definhando, degenerando. A partir dessas noções de arte, defendidas por Hitler, saúde e beleza se mesclam, tornando evidente o modelo de ser humano ideal.

Existe uma frase que mostra alguns pontos de partida para ideias como essas, da seleção e promoção da vida com base em ideais científicos e estéticos, da manutenção da vida em uma nação. É sobre esses pontos históricos que pretendo discorrer, brevemente, nos posts que virão nas próximas semanas, apresentando também alguns acontecimentos ligados a esses ideais eugênicos, presentes ainda hoje em nossa sociedade.

A frase que me refiro é uma citação de Hitler (ao menos supostamente), "se criarmos a síntese das três - Atenas, Esparta e Roma - nossa nação jamais perecerá".

É de conhecimento comum que na Grécia e Roma Antigas selecionavam aqueles que nasciam por aspectos físicos de estética e saúde (deformidades faciais e/ou corporais). Não se almejava, naquelas culturas e em tantas outras em que a prática de infanticídio era/é comum, o investimento em sujeitos fracos ou feios. A incumbência de criar crianças que não teriam a beleza que nos aproxima do Olimpo, a força dos deuses ou que nos faz vencer a guerra era pesada demais para se manter na sociedade. Assim, o infanticídio não era uma prática, na Antiguidade, tida como assassinato, mas quesito básico para se manter a civilização Grega e Romana, tal qual havia sido planejada.

A grande diferença entre as culturas ditas "da antiguidade" e a chamada Eugenia, que teve seu início no século XIX e que também pregava a seleção de pessoas para uma sociedade planejada e estética e intelectualmente aceitável, não foi no ato de seleção, mas em como se ancoram os argumentos para tanto.

Saltando alguns milhares de anos, ignorando completamente a Idade Média, partindo para a civilização das Luzes, temos uma volta ao planejamento e ordenamento da sociedade, um tempo de organização e produção do que é e como se faz ciência e sociedade, que possibilitou entendermos e estudarmos o mundo, como o fazemos hoje. A biologia teve um papel importantíssimo na emergência dos princípios eugênicos. Como dizia antes, a diferença em relação à antiguidade não foi no ato em si, mas em como se articulou e aceitou a proposta de seleção de pessoas nesses dois períodos históricos distintos. A eugenia, e outro movimento que teve sua emergência muito próxima em termos de tempo, o higienismo, teve como grande mote o discurso científico. Não era aceito somente selecionar, mas a seleção acontecia fundamentada em duas grandes teorizações do século XIX. Ambas fazendo aniversários centenários neste ano de 2009 (Aliás, o ano de 2009 é um ano bem interessante, se formos pensar em grandes datas históricas!)

E então? O tema interessou? Em breve, novos posts sobre o assunto: aguarde!!!

Obs: No Brasil, os direitos e a distribuição do filme é feita pela Versátil Home Video e Mostra Internacional de Cinema, tendo sido relançado em 2006. Atualmente é relativamente simples encontrá-lo em livrarias, ou mesmo em lojas de departamento, com preço bem acessível (quando escarafunchando promoções…).

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A criação do CNPq [Atualizado]


Em homenagem ao meu último ano de graduação e aos diversos relatórios enviados àqueles que me sustentaram contribuíram com a minha formação na área da pesquisa básica resolvi escrever sobre ele, o CNPq! Sim! Pois ainda encontro bolsistas do mesmo órgão que não têm idéia do significado da sigla (se você pensou Conselho Nacional de Pesquisa errou também. Rá!!). Pois bem, o post vai lembrar muito as páginas do wikipédia por causa de seus vários hiperlinks, mas não leve a mal são necessários e no mínimo "mais" informativos.

Desde 1920, o CNPq era considerado uma velha aspiração pela comunidade científica brasileira da época, foi um longo processo e há indícios de que seu início se deu numa série de reuniões que Paulo Assis Ribeiro realizou na primeira sede da Fundação Getúlio Vargas, na praia de Botafogo. Ali juntaram-se cientistas mais idosos e mais moços, que discutiam com bastante interesse a organização científica do Brasil.

A maior influência que o Brasil teve para a criação deste centro de pesquisas foi – como muita coisa da época – da França, onde, por Jean Pérrin foi criado o Centre National de la Recherche Cientifique (CNRS). O cientista brasileiro Carlos Chagas Filho, por intermédio de outros pesquisadores teve uma reunião com Jean Pérrin onde este lhe explicou o que era o CNRS e como havia sido criado. Então quando Carlos Chagas Filho retornou ao Brasil entregou todo o material ao então ministro da educação e saúde pública Gustavo Capanema, que “mostrou-se entusiasmado com a idéia e levou o material ao presidente Getúlio Vargas” (Carlos Chagas Filho).

No entanto ainda faltava alguém que desse mais peso ao movimento, uma pessoa com personalidade e influência, e foi daí que surgiu a pessoa do Almirante Álvaro Alberto Motta e Silva que havia retornado dos EUA, onde presidiu a primeira conferência sobre Energia Nuclear. Depois de anos de discussão, elaboração do projeto dentre muitos outros problemas mais políticos do que científicos, por meio da ABC (Academia Brasileira de Ciências) e do empenho de seu então presidente o Almirante, em 15 de janeiro de 1951 foi criado o Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), mais tarde transformado em Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (lei 6129, de 6/11/1974).

Mas qual a diferença entre um e outro? E porque a sigla continua sendo a mesma?

Necessariamente foi a política adotada em decorrência dos bastantes ajustes como criação e incorporação de institutos. Acompanhemos seu desenvolvimento em alguns tópicos - deixo claro que podem surgir muitas siglas. Muitas delas são conhecidas do público leitor, outras nem tanto, mas se há sigla há um nome por trás dela, então vamos registrar os dois:

Na década de 20 a ABC (Academia Brasileira de Ciências) propôs a criação de um Conselho Nacional de Pesquisa;

1936: Getúlio Vargas propôs a criação de um conselho de pesquisas experimentais para atividades agrícolas... Não foi pra frente;

1946: o almirante Álvaro Alberto sugeriu que a ABC intercedesse junto ao governo para a criação do Conselho Nacional de Pesquisa;

1948: o deputado José Pedroso Jr apresentou um projeto para a criação do conselho, o mesmo não foi aceito;

1949: uma comissão (de cientistas) foi designada para escrever um projeto de lei instituindo um Conselho Nacional de Pesquisas;

1951: no dia 15 de janeiro o presidente Dutra assina a lei de criação do CNPq;

1952: Criação do IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) e INPA (Instituto de Pesquisas da Amazônia);

1954: Criação do IBBD (Instituto de Bibliografia e Documentação), mais tarde transformado em IBCIT (Instituo Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia);

1955: Incorporação do MPEG (Museu Paraense Emílio Goeldi);

1957: Criação do IPR (Instituto de Pesquisas Rodoviárias), hoje pertencente ao DNIT (Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes);

1961: Criação do CNAE (Comissão Nacional de Atividades Espaciais), mais tarde transformado em INPE (Instituto nacional de Pesquisas Espaciais);

Quanto Instituto (e sigla)!!! Mas isso talvez seja para percebermos a importância de se ter um Conselho de Pesquisas no país.

Ainda entre as décadas de 70 e 90 o CNPq criou e / ou incorporou vários outros institutos e centros de pesquisa:

- Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF);

- Observatório Nacional (ON);

- Centro de Tecnologia Mineral (Cetem);

- Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC);

- Museu de Astronomia e Ciência Afins (MAST);

- Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS); Durante 10 anos (1987-1997), o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) e o CNPq investiram na implantação do LNLS;

- Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA);

- Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM).

Hoje estas unidades de pesquisa pertencem ao Ministério da Ciência e Tecnologia, o que permite o CNPq intensificar os esforços nas atividades de fomento científico e tecnológico visto que era, no princípio, um de seus principais objetivos. Na década de 90, com várias de suas funções passadas para o Ministério da Ciência e Tecnologia, os gestores do CNPq agora instituíram uma nova missão:

“Promover o desenvolvimento científico e tecnológico e executar pesquisas necessárias ao progresso social, econômico e cultural do país”.

Uma opção legal p/ quem deseja saber um pouco mais sobre o CNPq é ver a entrevista que o Eduardo Bessa do ScienceBlogs Brasil fez com a vice-presidente da instituição.

http://scienceblogs.com.br/bessa/2009/10/eduardo_bessa_entrevista_wrana_1.php

Valeu Bessa!!!

Texto Extraído do Centro de Memória do CNPq e do livro “Um Aprendiz de Ciência” de Carlos Chagas Filho;

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O "príncipe" dos observadores

Bom,

Hoje a passagem será rápida e indolor, a idéia é socializar um artigo que foi publicado recentemente no jornal do Instituto de Biociências da Unesp, instituição onde concluirei meu curso (se a dengue e H1N1 permitirem).

Para acessar o artigo é só clicar no título do post e ir até a página 2, ou salvar em Pdf p/ ler off line.

Boa leitura e aquele abraço!

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Copérnico: O 112º elemento



O elemento de número 112, o unúmbio, da tabela periódica poderá receber um nome muito melhor do que o atual digno de 2009: copernicum (Cp). Digno, vou dizer aqui por duas razões óbvias (ou não):
Primeiro porque 2009 é o Ano Internacional da Astronomia, então nada mais justo que fazer esta devida homenagem a esse campo da ciência; Segundo pela importância da Teoria Heliocêntrica do Sistema Solar, que diz que o Sol está PERTO do centro do universo, que diz que a Terra possui 3 movimentos: rotação diária, volta anual, e inclinação anual de seu eixo. O que pode explicar muita coisa, por exemplo, as estações do ano, que por sua vez podem ser cruciais para quem vive da agricultura ou para um país onde a agricultura é a base de sua economia.
                                          
Bom, unúmbio foi descoberto em 1996 por um grupo de cientistas chefiado por Armbruster no Heavy Ion Research Laboratory (G.S.I.) em Darmstadt na Alemanha produzido através da reação nuclear entre o chumbo 208 e o zinco 70 em um acelerador linear de partículas. Atualmente a IUPAC usa a nomenclatura provisória para o elemento 112 chamando-o de unúmbio (Uub). Maaaaas!! Eis que um pesquisador (Sigurd Hofmann) e sua equipe da mesma instituição (o G.S.I) propuseram o nome do astrônomo Copérnico na tabela. E a União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC) deixou claras as condições para se propor um nome a um novo elemento químico num artigo de 2002 que diz:

“Um procedimento é proposto para nomear novos elementos... os descobridores são convidados a propor um nome e um símbolo para a Divisão de Química Inorgânica da IUPAC. O Elemento pode ser nomeado dando referência a um conceito mitológico, um mineral, um lugar ou país, uma propriedade ou um cientista. Após análise e aceitação pela Divisão de Química Inorgânica, a proposta segue para o conselho da IUPAC para obter sua aprovação”.

A IUPAC agora levará um período de seis meses para discussão para eliminar potenciais confusões, pois a sigla Cp já foi utilizada como sinônimo do fragmento de ciclopentadieno C5H5.
Agora só nos resta torcer para que ele seja aprovado, pois eu, em meu ensino de química preferiria mil vezes me lembrar de copérnico do que unúmbio.

[ATUALIZADO] 
Antes tarde do que nunca!
Finalmente o elemento 112 já não leva mais o nome do número (un um bio ~ “um um dois”). As adoráveis tabelas periódicas do seu colégio ou da sua faculdade certamente já estão com o nome do ilustre Copérnico no local de homenagem. A aceitação do nome do elemento pela IUPAC foi aprovada e publicada em um artigo em fevereiro de 2010. 

Para aqueles um pouco mais atenciosos, parece que a ideia agradou muito e outros elementos já estão (ou estavam) com nomes que homenageiam outros cientistas também. Ficou curioso? Lá vão alguns!

- Rutherfordium (Rf): elemento 104, em homenagem ao físico e químico Ernest Rutherford (1871-1937).
- Bohrium (Bh): elemento 107, em homenagem ao físico Niels Henrick David Bohr ou Niels Bohr (1895-1962).
- Roentgenium (Rg): elemento 111, em homenagem ao físico Wilhelm Conrad Röntgen (1845-1923).
- Einsteinium (Es): elemento 99, em homenagem ao físico Albert Einstein (:P) (1879-1955).
- Fermium (Fm): elemento 100, em homenagem ao físico Enrico Fermi (1901-1954).
- Mendelevium (Mv): elemento 101, em homenagem ao químico e físico Dmitri Ivanovic Mendeleiev (1834-1907).
- Nobelium (No): elemento 102, em homenagem ao químico e inventor Alfred Nobel (1833-1896).
- Lawrencium (Lr): elemento 103, em homenagem ao físico Ernest Orlando Lawrence (1901-1958).

A próxima pergunta a ser feita é: o que cada um deles fez para receber essa grandiosa homenagem?



Referências:
- Pure Appl. Chem., 2002, Vol. 74, No. 5, pp. 787-791
Nature, 23 jul 2009, vol. 460, p. 449.
Imagens:
- Concepção artística do elemento unúmbio. Autora da imagem: Carol L. Myers;
- Casa de Nicolau Copérnico em Torun, Polônia. Fotografia de Stephen McCluskey em 01/04/2005.
Referências da atualização: 
- TATSUMI, Kazuyuki; CORISH, John. Name and symbol of the element with atomic number 112 (IUPAC -Recommendations 2010). Pure and Applied Chemistry, v. 82, n. 3, p. 753-755, 2010.